De dois em dois meses reunimo-nos para algo muito simples e, ao mesmo tempo, muito difícil de explicar a quem nunca viveu um Kīrtan.
Cantamos mantras.
Mas reduzir o Kīrtan apenas a “cantar” talvez fique muito longe daquilo que realmente acontece nestes encontros.
Na tradição indiana, o Kīrtan é uma prática de Bhakti Yoga — o Yoga da devoção. Uma prática antiga onde os mantras são repetidos em grupo, normalmente através de um formato muito simples: alguém canta e os restantes respondem. Aos poucos, a repetição vai criando ritmo, presença, escuta e uma sensação muito particular de ligação entre as pessoas.
Não é necessário “saber cantar”. Na verdade, o Kīrtan nunca teve relação com performance musical. O mais importante não é a qualidade da voz, mas a capacidade de permanecer presente dentro da repetição.
E talvez seja precisamente isso que torna esta prática tão especial.
Vivemos num tempo profundamente mental. Estamos constantemente a pensar, analisar, interpretar, comentar interiormente tudo aquilo que vivemos. O mantra tem uma capacidade muito particular de interromper esse movimento incessante da mente. Através da repetição, da respiração e do som, cria-se lentamente um espaço diferente dentro de nós.
Por isso os mantras não são apenas palavras bonitas ou sons exóticos.
Na tradição, cada mantra carrega um significado, uma direção e uma determinada qualidade interior. Om Namaḥ Śivāya, por exemplo, é um mantra ligado a Śiva, símbolo de transformação, silêncio e dissolução do excesso. Om Gaṁ Gaṇapataye Namaḥ é tradicionalmente associado a Gaṇeśa, relacionado com clareza, remoção de obstáculos e novos começos.
Mas talvez o mais importante não seja apenas “o significado” intelectual do mantra. O verdadeiro impacto da prática acontece através da repetição contínua, da escuta e da forma como o som começa lentamente a transformar o estado interno.
Ao longo destes meses, o Kīrtan tornou-se também um dos momentos mais especiais da comunidade da Casa da Alma. Pessoas muito diferentes entre si acabam sentadas lado a lado, cantando os mesmos mantras durante horas, sem grande necessidade de explicação. Há algo profundamente humano e simples nisso.
Estamos numa época onde quase tudo é rápido, individual e fragmentado. O Kīrtan faz precisamente o contrário: abranda, aproxima e cria comunidade.
Há momentos em que a sala inteira parece respirar em conjunto. Outros em que o silêncio entre os mantras se torna tão forte quanto o próprio canto. E talvez seja precisamente essa experiência coletiva que faz com que tantas pessoas regressem uma e outra vez.
Na tradição indiana, cantar para os “deuses” nunca significou apenas adorar figuras exteriores. As divindades representam também qualidades internas, forças simbólicas e aspetos da própria consciência humana. Cantar um mantra é, muitas vezes, uma forma de nos aproximarmos dessas qualidades dentro de nós próprios: clareza, coragem, presença, discernimento, compaixão, entrega ou transformação.
Talvez por isso o Kīrtan continue tão vivo há milhares de anos.
Porque, no fundo, existe alguma coisa profundamente transformadora em parar algumas horas, sentar-se com outras pessoas e simplesmente cantar.
E talvez, mais do que um evento, seja uma oportunidade rara de interromper durante algum tempo o ruído constante do quotidiano e recordar aquilo que acontece quando voltamos a respirar, escutar e estar juntos.
