O silêncio tornou-se raro.

Não apenas o silêncio exterior, mas aquele silêncio mais difícil de encontrar: o silêncio interno. Aquele momento em que deixamos de estar constantemente ocupados, distraídos ou estimulados e começamos realmente a perceber o movimento incessante da mente.

Talvez por isso exista hoje tanta dificuldade em parar.

Vivemos rodeados de ruído. Sons, notificações, conversas, imagens, informação, opiniões, música permanente, vídeos curtos, distrações rápidas. Existe sempre alguma coisa a acontecer e, quando não existe, procuramos imediatamente criar mais estímulo.

O vazio tornou-se desconfortável.

Basta entrar num elevador, numa sala de espera, num comboio, e percebe-se rapidamente isso. Quase ninguém permanece realmente ali. O gesto é automático: pegar no telemóvel, abrir qualquer coisa, deslizar o dedo pelo ecrã, preencher imediatamente o espaço.

Como se existisse uma dificuldade profunda em simplesmente estar.

É curioso perceber como muitas pessoas já quase não conseguem esperar sem distração. Permanecer alguns minutos em silêncio, sem fazer nada, sem preencher imediatamente o instante com informação, movimento ou ruído.

Como se o silêncio criasse exposição.

Porque talvez o silêncio revele demasiado.

Quando o ruído abranda, começamos finalmente a encontrar aquilo que passamos grande parte do tempo a evitar: cansaço acumulado, ansiedade constante, pensamentos repetitivos, inquietação, solidão, medo, excesso mental. O silêncio retira distrações e deixa-nos frente a frente connosco próprios.

E isso pode ser profundamente desconfortável.

Talvez seja também por isso que tantas pessoas sintam necessidade permanente de ocupação. Não necessariamente porque exista sempre algo importante para fazer, mas porque continuar em movimento evita o confronto com aquilo que emerge quando tudo pára

 

Hoje fala-se muito em descanso, mas raramente em quietude.

Porque descansar não é apenas interromper tarefas. Muitas vezes o corpo até pára, mas a mente continua acelerada. Continua a antecipar, organizar, comentar, recordar, comparar, consumir estímulo atrás de estímulo.

E lentamente habituámo-nos a viver assim.

Habituámo-nos a preencher todos os espaços. Todos os silêncios. Todas as pausas. Como se existisse uma incapacidade crescente de permanecer simplesmente presentes no instante.

Talvez por isso o silêncio pareça estranho para tantas pessoas.

Mas talvez exista também alguma coisa profundamente importante dentro dele.

Porque é no silêncio que começamos verdadeiramente a observar. A escutar. A perceber o ritmo interno em que vivemos. A reconhecer aquilo que normalmente fica escondido por baixo da velocidade constante do quotidiano.

Talvez uma das coisas mais difíceis hoje em dia seja precisamente esta: conseguir permanecer alguns momentos sem fugir imediatamente para distração, ruído ou estímulo.

E talvez seja exatamente aí que alguma coisa começa finalmente a abrandar.