Há lugares aos quais regressamos não porque sejam confortáveis, fáceis ou perfeitos, mas porque alguma coisa dentro de nós continua profundamente ligada a eles.

A Índia, Bali e o Sri Lanka são assim para nós.

Ao longo dos anos fomos percebendo que estas viagens deixaram de ser apenas viagens. Tornaram-se lugares de regresso. Lugares onde voltamos a respirar de outra forma, onde a vida ganha outro ritmo e onde partes de nós que ficam esquecidas no excesso do quotidiano reaparecem lentamente.

Vivemos numa época em que tudo nos empurra para a aceleração. Há sempre mais alguma coisa para responder, mais alguma coisa para fazer, mais alguma coisa para resolver. O descanso tornou-se quase desconfortável. O silêncio tornou-se estranho. E parar, muitas vezes, parece culpa. Dizemos frequentemente que precisávamos de dias com mais horas. Mas será mesmo isso? Se o dia tivesse trinta horas, viveríamos com mais presença ou apenas encontraríamos novas formas de o preencher?

Talvez o problema nunca tenha sido a falta de tempo. Talvez esteja na forma como habitamos o tempo que já temos.

Há lugares que não visitamos. Há lugares aos quais regressamos porque uma parte de nós continua a viver neles.

É precisamente isso que estes lugares nos recordam, vezes sem conta.

Há qualquer coisa na Índia, em Bali e no Sri Lanka que nos desmonta. Talvez seja a simplicidade. Talvez seja a humanidade tão crua e tão presente. Talvez seja a forma como a vida e a morte coexistem sem tantas camadas de distração. Talvez seja a espiritualidade vivida naturalmente no quotidiano. Talvez seja o olhar das pessoas, o caos, os templos, os mercados ou apenas uma conversa inesperada. Há coisas que não conseguimos explicar completamente.

A verdade é que, cada vez que regressamos, voltamos diferentes.

Porque estes países não permitem permanecer demasiado tempo na superfície. Aproximam-nos daquilo que somos quando deixamos cair as personagens que construímos para responder às exigências do dia a dia. Fazem-nos olhar com mais honestidade para os nossos medos, excessos, crenças e fragilidades.

A verdadeira viagem não acontece quando mudamos de país. Acontece quando deixamos de olhar para a vida da mesma forma.

Ao longo destes anos vimos pessoas chegarem completamente fechadas e regressarem mais leves. Vimos pessoas emocionarem-se em silêncio apenas ao assistir a uma cerimónia simples. Vimos pessoas confrontarem-se com os próprios medos, crenças e fragilidades. Vimos amizades nascerem para a vida inteira. Vimos pessoas perceberem que felicidade e simplicidade talvez estejam muito mais próximas uma da outra do que imaginavam.

E percebemos também que aquilo que realmente transforma não são apenas os lugares que visitamos, mas a forma como passamos a viver depois de regressarmos.

O Yoga lembra-nos constantemente que este instante é o único lugar onde realmente estamos. A respiração acontece sempre agora. Não respiramos ontem nem amanhã. Talvez por isso regressar à respiração seja também regressar à vida. Não como uma técnica milagrosa, mas como um recordar de que viver não é apenas produzir, resolver, acumular ou correr atrás do próximo objetivo.

Talvez a presença seja o maior ensinamento que estes lugares continuam a oferecer-nos.

Nestes países essa presença parece surgir de forma quase inevitável. Há refeições feitas sem pressa. Há conversas longas. Há pessoas que vivem com muito menos do que nós e, ainda assim, revelam uma capacidade imensa de acolhimento, disponibilidade e humanidade. Há uma aprendizagem silenciosa em observar outras prioridades, outras formas de medir o sucesso e outras maneiras de estar no mundo.

É isso que sentimos vontade de partilhar quando levamos grupos connosco. Não queremos mostrar apenas paisagens bonitas ou experiências exóticas. Queremos aproximar as pessoas da essência destes lugares, das suas tradições, das suas gentes e da forma como a vida ainda consegue ser vivida com uma presença que tantas vezes sentimos faltar no Ocidente.

Há uma enorme aprendizagem em comer de forma simples, em viver com menos, em observar outras prioridades e em perceber que existem pessoas com muito pouco materialmente e, ainda assim, com uma enorme riqueza humana.

Não levamos pessoas para conhecer um país. Levamo-las para experimentar outra forma de habitar a vida.

Talvez uma das maiores alegrias seja poder viver tudo isto também em família. Levar as nossas filhas connosco, vê-las crescer em contacto com culturas tão diferentes da nossa, observar como aprendem naturalmente a relativizar excessos, a reconhecer privilégios e a descobrir que existem muitas formas diferentes de viver uma vida plena.

Hoje sentimos que estes lugares fazem parte da nossa vida de uma forma difícil de separar. Há uma espécie de chamamento silencioso que permanece mesmo quando regressamos a casa, como se uma parte de nós nunca saísse completamente de lá.

Talvez seja por isso que sentimos pouca vontade de procurar outros destinos.

Porque há lugares que visitamos.

E há lugares que mudam a forma como habitamos a vida.